Tudo em benefício do orelhudo

por Redação CartaCapital

Na Itália e no Brasil, começou a campanha para tirar Daniel Dantas do buraco

Para desvendar o mistério talvez valesse
recorrer ao comissário Maigret, a Poirot, a Nero Wolf, sem falar de Sherlock
Holmes. Por que neste exato momento as duas semanais de informação italianas
voltam a falar da operação de espionagem montada pela Telecom Italia no final
da gestão de Marco Tronchetti Provera?

Segundo a edição de Panorama da semana passada
e de L’Espresso desta, surgem duas novidades. Uma, o esquema de espionagem
transpôs as fronteiras da Península e invadiu o Brasil. Outra, a Telecom Italia
teria cuidado de azeitar as negociações relativas à permanência da Tim no País,
graças a um sistema de propinas sabiamente distribuídas entre autoridades
nativas. Citados especificamente deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia
da Câmara.

Há poucas edições, CartaCapital publicou uma
entrevista com Angelo Jannone, um dos responsáveis pelo setor de segurança da
companhia no Brasil, na qual ele nega o pagamento de propinas a autoridades e
policiais brasileiros. Na terça 6, Jannone foi colocado em cárcere domiciliar
pelos promotores milaneses que prosseguem na apuração do caso.

Histórias intrincadas, que dizem muito sobre o
método de atuação escolhido por executivos da operadora italiana, mas, como de
costume, usadas no Brasil não para esclarecer os fatos e sim para
embaralhá-los. Há método e objetivos claros na confusão. O principal deles?
Fazer valer a tese de que todos os desmandos e, por que não, crimes cometidos
pelo banqueiro Daniel Dantas foram uma ficção armada pela Telecom Italia, em
conluio com autoridades, políticos e empresários brasileiros, com o único
intuito de prejudicar o dono do Opportunity. Dantas, o perseguido, eis a imagem
que se pretende criar. E ela não tem limites. Quem sabe fosse esta a chave
oferecida pelos investigadores acima citados para aclarar a situação.

Segundo a teoria, também estariam envolvidos
na trama integrantes do Ministério Público, policiais federais e até um juiz da
corte das Ilhas Cayman (atenção, o nome do magistrado é Kellock e não Kellog),
onde o Opportunity perdeu todas as ações contra o empresário Luís Roberto Demarco,
principal desafeto de DD. Toda essa engrenagem funcionaria à base de propina.

De forma consciente ou não, de maneira
interessada ou não, jornalistas nativos contribuem para obscurecer os fatos
(Dantas agradece). A começar pela quase completa omissão, na reprodução recente
dos acontecimentos na Itália, do fato de Nahas ter sido apontado, na Panorama,
como um intermediário de propinas a parlamentares. Incrivelmente, os textos
publicados aqui conseguem falar da suposta operação sem mencionar Nahas, um dos
personagens centrais da reportagem da revista.

Compreender o papel do investidor é essencial
para iluminar a estratégia dantesca. Até a ascensão de Tronchetti Provera ao
comando da Telecom Italia, os italianos viviam às turras com Dantas. A partir
deste momento, e com a intermediação de Nahas, a Telecom começou a se aproximar
do banqueiro brasileiro. Em 2005, a operadora de telefonia comprometeu-se a
pagar cerca de 1 bilhão de reais pelas ações do Opportunity na Brasil Telecom.
O acordo foi desfeito um ano mais tarde. Ainda assim, Dantas embolsou 50
milhões de euros para encerrar as inúmeras pendências judiciais entre as partes
(o que, como se viu depois, ele não tinha poder para fazer). Nahas,
intermediário, teria embolsado 25 milhões de reais na transação.

O investidor não gosta muito de ver essa
relação exposta. Irrita-se, faz ameaças. Na quarta 7, por exemplo, após ver a
história da Panorama relatada no Blog do Mino, enviou uma correspondência
“confidential and personal”, na qual 
ameaça o diretor de redação deste modesto semanário com “medidas
judiciais cabíveis”. Por que Nahas está tão nervoso?

E Daniel Dantas? Ele continua alvo de
investigações que pouco ou quase nada têm a ver com os crimes cometidos pela
operadora multinacional (à parte as semelhanças de estilo em lidar com
adversários e desafetos). A grampolândia montada por DD antecede a espionagem
efetuada pelos italianos, realizada em geral na Itália. Mas não se exclua a
possibilidade de que o próprio orelhudo tenha meios para influenciar jornalistas
peninsulares. Aqui ele tem com os nativos.

O dossiê com supostas contas do presidente
Lula, ministros, um senador e do ex-diretor-geral da Polícia Federal, como
atesta a própria Veja, foi entregue pelo banqueiro e, a mando dele,
confeccionado por um ex-agente da CIA e ex-executivo da Kroll. São registros
emblemáticos, luminares, capazes de servir de farol, principalmente quando um
nevoeiro criado de propósito tenta encobrir o que resta de verdade factual na
trama.

Aqui os banqueiros sofrem
Citibank e outros apostaram na securitização.
Deram-se mal

Ovelho Citi e seus congêneres de igual porte
fizeram lobby pesado para escapar dos constrangimentos do Glass-Steagal Act,
criatura do New Deal. Desde os anos 80, os bancos comerciais foram
progressivamente liberados das cadeias legais que os aprisionavam às tediosas
operações de empréstimos-depósitos. Decidiram aventurar-se nas terras
inexploradas da desregulamentação financeira.

Ingressaram no terreno desconhecido da
“securitização” de recebíveis de todos os tipos, em especial os baseados em
empréstimos hipotecários, dívidas de cartões de crédito, mensalidades
escolares, em suma, todo tipo de cash flow com alguma possibilidade de ser pago
pelos devedores finais. Os bancos trataram de “empacotar” os créditos, os bons,
os ruins, os péssimos, e remover a “mercadoria” dos balanços, mediante a
criação de Special Investiment Vehicles. Vislumbraram o novo Eldorado.

A festa dos mercados de crédito e seus
derivativos ia animada, os lucros cada vez mais gordos quando vieram à tona os
cadáveres dos devedores Ninja (No Income, No Job and no Asset), vítimas e
beneficiários dos empréstimos subprime. Nos idos de agosto, nos primeiros
sinais de turbulência, Chuck Prince, o CEO do Citigroup, desdenhou a gravidade
da crise. “Enquanto a música da liquidez está tocando, a gente tem de dançar e
nós estamos dançando.” A música parou, os prejuízos avolumaram-se e Chuck
Prince dançou. Charles W Prince, você está demitido!

À espera do estouro

A excessiva valorização da estatal chinesa sinaliza
o extremo inchaço da Bolsa de Xangai

Na segunda-feira 5 de novembro, as ações da
estatal PetroChina foram lançadas na Bolsa de Xangai com uma alta imediata de
163%. O valor de mercado da empresa atingiu 1,1 trilhão de dólares, sem
precedentes na história do capitalismo global, para depois oscilar ainda bem
acima dos 900 bilhões.

A bolha especulativa é tão escandalosa quanto
a da era dourada das pontocom. Por melhores que sejam as perspectivas do
petróleo e da economia chinesa, faz pouco sentido que uma empresa petrolífera
seja avaliada em mais de dez vezes sua receita de 90 bilhões em 2006 – e nem se
fale de lucro. A Petrobras, que faturou 72 bilhões no ano passado (e deve
passar dos 90 bilhões em 2007), vale hoje 200 bilhões, menos que o triplo da
receita. A ExxonMobil, que faturou 378 bilhões, é avaliada por 476 bilhões.

Deve-se ver aí um misto de ufanismo com
excesso de ansiedade dos investidores por fugir do dólar para uma aposta na
combinação de duas coisas que parecem crescer sem limites: o PIB chinês e o
preço do petróleo. As duas dinâmicas são sólidas – muito mais que a “nova
economia” dos anos 90 – e nada têm de “bolhas”, mas foram claramente
superestimadas.

O quanto isso ameaça a economia chinesa e
global, é outra questão. Na China, como no Brasil, a Bolsa parece ter pouca
relação com a economia real e vice-versa. Consumo e investimento devem ser
pouco afetados e a repercussão imediata no exterior também seria limitada, pois
o mercado financeiro chinês ainda é bem fechado. Mas o estouro da bolha pode
jogar especuladores inexperientes na pobreza e ter desagradáveis conseqüências
financeiras e políticas para Pequim.

Chávez testa os limites
Defecção de aliado e o resultado de pesquisa
indicam que o bolivarianismo precisa negociar

A reforma constitucional de Chávez, ao promover
uma maior centralização do poder na Presidência e prorrogar indefinidamente a
possibilidade de reeleição, força a boa vontade daqueles que lhe reconhecem os
serviços prestados aos desprivilegiados e à soberania de seu país. É de um
personalismo excessivo. Considerar-se insubstituível a tal ponto equivale, na
prática, a dar o próprio projeto como condenado a médio ou longo prazo.

As pesquisas de opinião referentes ao
referendo de 2 de dezembro sobre a reforma mostram ambivalência, um sinal
negativo considerada a facilidade com que Chávez venceu todos os testes
eleitorais anteriores. Segundo pesquisa do Instituto Venezolano de Análisis de
Datos na segunda metade de outubro, a aprovação ao presidente continua em torno
de 70% e 62,3% acreditam que a reforma será aprovada, mas só 42,8% a julgam
benéfica ao país, ante 31,3% contrários e 25,9% que não respondem ou dizem não
saber.

Isso foi antes de 5 de novembro, quando o
general Raúl Isaías Baduel, ministro da Defesa até julho, chavista de primeira
hora e um dos principais responsáveis – na qualidade de comandante dos
pára-quedistas – pela derrota dos golpistas de 2002, tomou posição pelo “não”.
Não é a carreira de um vendido ou reacionário: é um homem de convicções, até
recentemente compatíveis com as do presidente. Sua tomada de posição no centro
do espectro político representa um sério risco para o projeto para o qual seu
apoio foi, até agora, decisivo. É sinal de que para Chávez, mesmo que vença, chegou
a hora de ousar menos e negociar mais.

A celebração do crime
Policiais militares acusados de proteger traficantes, presos em setembro e
liberados esta semana, são recebidos com fogos de alegria

Em setembro último, após sete meses de
investigação, a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro mandaram
à prisão 73 policiais militares acusados de formar uma quadrilha que recebia
dinheiro para dar proteção a traficantes na Baixada Fluminense. Houve muitos, e
justos, aplausos para a operação, chamada pela polícia de “Duas caras”.

Na terça-feira 6, quase dois meses depois,
beneficiados por uma decisão judicial, 43 deles deixaram o Batalhão Especial
Prisional (Bep), onde estavam recolhidos, saíram com pompa e circunstância
exibidas com acinte. Soltaram foguetes, imediatamente após cruzar o portão de
saída, desfilando em carros luxuosos. Entre outros, uma Toyota Hilux de 110 mil
reais e uma Honda New Civic de 65 mil, inalcançáveis para salários que variam
de 800 a 1,3 mil reais (soldados e cabos) e 1,6 mil reais (sargentos).

Os policiais valeram-se de uma firula
jurídica. O juiz considerou  uma falha
importante o fato de a denúncia oferecida pelo Ministério Público não ter
descrito a conduta de cada um daqueles 43 PMs liberados. “A conduta é de uma quadrilha.
É única”, reagiu o procurador-geral do Ministério Público, Marfan Vieira. Ele
vai recorrer.

Entendimentos tão opostos, entre um juiz e um
procurador, são por si só uma questão preocupante. Mas nada tão grave quanto o
fato de que os 73 policiais presos representam um alarmante porcentual, acima
de 10%, do total de efetivos do 15º Batalhão de Duque de Caxias. Esse número
fortalece a impressão de que, na mui leal e heróica cidade de São Sebastião do
Rio de Janeiro, a delinqüência de policiais já deixou de ser exceção. É regra.

http://www.cartacapital.com.br/edicoes/470/tudo-em-beneficio-do-orelhudo/

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