MAURÍCIO DIAS: LULA 3 É TÃO FEIO QUANTO FHC 2

O diretor-adjunto da revista Carta Capital, Maurício Dias, disse em
entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta sexta-feira, dia 02, que uma
manobra para garantir o terceiro mandato de Lula seria tão feio quanto
a manobra realizada para garantir o segundo mandato de FHC (clique aqui para ouvir o áudio).

“O Lula fazer no poder o que o Presidente Fernando Henrique fez para
conseguir a reeleição é um papel tão feio quanto o do seu antecessor”,
disse Dias.

Segundo Maurício Dias, o Presidente Lula e o Governo fazem um  jogo
político com a possibilidade do terceiro mandato, “porque nada melhor
para o poder do que ter perspectivas de continuar no poder”.

“Mas evidentemente não há condições políticas e nem é razoável, na
minha opinião, que se mude a constituição para um terceiro mandato”,
disse Dias.

Leia a íntegra da entrevista com Maurício Dias:

Paulo Henrique Amorim – Maurício, a primeira dúvida
que se extrai da leitura desse teu livro, especialmente do posfácio
onde você faz um balanço dos documentos apresentados, é sobre a dúvida
a respeito da participação da CIA na morte de Che Guevara. Você diria,
em resumo, o que? Foi a CIA que localizou e matou o Che Guevara?

Maurício Dias – Não, não, a CIA não localizou, a
questão é se a CIA tramou, quer dizer, deu a ordem para a execução do
Che Guevara, esse é o problema. O Castañheda, que tem uma biografia do
Che, diz que esse é o enigma dos enigmas da questão. E acho que esses
documentos desse livro agora eles apontam mais diretamente para a CIA.
É cedo, ainda é cedo, seria leviano afirmar que a ordem foi da CIA, mas
cada vez a seta aponta na direção da CIA. Que inclusive agiu, agiu mais
uma vez com freqüência lá na Bolívia, à margem da Casa Branca

Paulo Henrique Amorim – Você cita, e a participação
é freqüente, aparece várias vezes no livro, o agente da CIA Félix
Rodríguez, um cubano que se instalou em Miami e logo começou a
trabalhar para a CIA, não é isso?

Maurício Dias – O Félix Rodríguez, que recebeu
naquele momento a patente de capitão e adotou o codinome de Ramos,
capitão do exército boliviano, ele era o homem da comunicação. Naquele
momento ele estava na província de La Higueta, na Bolívia, e ele
dominava o sistema de comunicação daquele local. Ele recebeu, ele diz
no livro dele que ele recebeu, a ordem para a execução e vai ao
comandante militar da região, o coronel Zenteno e diz que havia
recebido ordem para a execução do Che. Ele conta que tentou demover o
coronel para não matar, seria bom que eles entregassem o Che para a
CIA, que levariam o Che lá para o Panamá e iria usar como instrumento
de troca com Fidel Castro. Agora, há um documento, e esse é um
documento importantíssimo desse livro, um relatório secreto do exército
americano, que desmente e disse que o coronel Zenteno deixou o Che em
La Higueta voltou para tentar capturar mais guerrilheiros e antes de
sair disse, mantenha os prisioneiros vivos. De forma que o livro do
Félix Rodríguez, que de certa forma é abençoado pela CIA, mente nesse
episódio, se tiver certo o relatório do exército americano.

Paulo Henrique Amorim – Agora, quem deu a ordem para executar os prisioneiros vivos?

Maurício Dias – A ordem chega no ponto de vista
boliviano para um capitão chamado Gueri Prado, que passa para um
tenente chamado Perez, que tinha muita admiração pelo Che Guevara. E o
tenente repassa para um sargento chamado Mário Terán. O sargento entra
uma primeira vez numa salinha de uma pequena escola pública em La
Higueta, onde o Che estava sentado. O Che se levanta e troca,
inclusive, algumas palavras com ele. Inclusive, com muita ironia, o
Che. Ele pergunta ao Che como o Che gostaria de morrer. O Che disse
assim: ‘de barriga cheia’. Ele pergunta se o Che era materialista e o
Che disse: ‘talvez’. Aí ele sai toma mais cervejas – e isso o relatório
do Exército americano confirma – aí volta uma segunda vez. O Che
levanta. Ele manda o Che sentar. O Che disse que não. Ele manda, não. E
o Che disse: ‘você vai matar um homem’. E aí ele desfere nove tiros no
Che Guevara, esse sargento chamado Mário Terán.

Paulo Henrique Amorim – Essa seria então a maneira pela qual o Che morreu, com nove tiros…

Maurício Dias – Nove tiros de uma N-2.

Paulo Henrique Amorim – …e não N-1 como existe uma divergência entre o texto do Castañheda e do Henderson.

Maurício Dias – Do Henderson, exatamente.

Paulo Henrique Amorim – Agora, outra coisa Maurício, como é que é a participação do Lyndon Johnson na história?

Maurício Dias – Esse é um documento do Walter Oston
que é o assessor de segurança e que mandou um memorando para ele, às
seis horas da tarde dizendo: “prenderam o Che Guevara, é 90% certo,
falta uma confirmação”. Quando ele avisa isso ao presidente Lyndon
Johnson, o Che já tinha sido executado na Bolívia. São esses documentos
importantes. Aliás, Paulo, não há documento que fale que o Che não
tomava banho.

Paulo Henrique Amorim – Mas isso apareceu aqui na Veja.

Maurício Dias – Pois é, mas isso é uma coisa que a
Veja copiou de um documentário preparado pelos cubanos de Miami. E aí,
um cidadão fala isso, sustentado na própria voz. A Veja cita isso e não
cita o local, a origem, de onde tirou certamente envergonhada pela
fonte.

Paulo Henrique Amorim – Os cubanos de Miami.

Maurício Dias – Os cubanos de Miami.

Paulo Henrique Amorim – Agora, voltando a esse
ponto da participação do presidente americano, o Lyndon Johnson, quando
ele recebe a notícia de que o Che tinha sido preso, na verdade o Che já
estava morto?

Maurício Dias – Já estava morto. E você percebe no
livro que o embaixador em La Paz, o Douglas Henderson, fica
freqüentemente à margem do que estava ocorrendo, uma explicação
possível para isso é que o Henderson era um homem ligado ao presidente
Kennedy, essa é uma das possibilidades e era um homem de viés mais
liberal. Ele, em freqüentes embates com o governo boliviano, o
presidente Barrientos, naquela ocasião, dizendo que os guerrilheiros
teriam que ser presos e o Barrientos dizia que tinham que ser
executados. Então fica esse embate, a posição dele fica uma posição
melhor, nesse episódio, o Henderson. Agora, uma outra coisa curiosa
também, Paulo, é que a questão que se refere ao Régis Debray e o Ciro
Bustos. O Debray é um francês e o Ciro Bustos um argentino, é uma coisa
curiosa. Os dois foram presos no mesmo momento, em abril de 67, e os
dois confirmam, falam que o Che estava na Bolívia. O Ciro Bustos, que
era um artista plástico…

Paulo Henrique Amorim – Eles foram presos onde?

Maurício Dias – Foram presos quando saíam de um
acampamento guerrilheiro ao encontro do Che Guevara, na selva, foram
presos na selva, na mata boliviana. O Bustos era artista plástico e
teria feito desenho do rosto de alguns guerrilheiros. O fato curioso é
o seguinte, o Debray depois se tornou o assessor do presidente
Mitterrand, na França, e o Bustos desapareceu, ele vive na Noruega, mas
nunca mais se falou nada. Agora, o Debray foi anistiado pelo Fidel
Castro, no prefácio que o Fidel Castro fez para o diário do Che
ele ressalva e elogia a posição do Debray, mas não faz menção ao Ciro
Bustos, que é um argentino. De forma que eu fiquei intrigado, e aí eu
não tenho a resposta, para o fato de ele ter anistiado o Debray, que
falou, e o Ciro Bustos, que também falou,  por que não foi anistiado?
Essa é uma coisa que fica, essa dúvida que sobra.

Paulo Henrique Amorim – Você acha que o Debray e o Bustos… Você está dizendo que o Debray e o Bustos deram informações sobre o Che?

Maurício Dias – Deram, foram presos e falaram. Confirmaram a presença do Che lá.

Paulo Henrique Amorim –  Agora, outra coisa que
fica da leitura de qualquer trabalho do Che, especialmente desse teu
trabalho, do trabalho do Castañheda e do Henderson é a seguinte, o
Fidel Castro deixou o Che morrer a própria sorte no exterior, lá na
mata boliviana, ou o Che iria ser localizado e assassinado mais cedo ou
mais tarde?

Maurício Dias – Paulo, a gente vê hoje que foi um
equívoco a opção do Che pela Bolívia. Ele contava, quando ele escolheu
a Bolívia, que a Bolívia seria um caminho de passagem para a Argentina,
tanto que a região fica muito próxima à Argentina. E não era a melhor
região para você iniciar, os especialistas dizem isso, para iniciar um
movimento guerrilheiro. Ele escolheu porque o governo era uma ditadura
militar e um governo com muitos problemas políticos, havia muita
pobreza na Bolívia, como há até hoje, e ele achava que aquilo era
suficiente para mobilizar os camponeses, os campesinos, a exemplo do
que fizeram em Cuba. Acontece que aí há alguns equívocos, por exemplo,
os camponeses na Bolívia, na verdade, eram pequenos proprietários. Em
1952, o presidente fez uma meia reforma agrária e isso… além de tudo
tem um problema de nacionalismo na Bolívia, o Che era um estrangeiro.
Isso também dificultou e ele, Che, reclama muito freqüentemente no
diário da falta de adesão dos camponeses. No máximo, no apogeu da
guerrilha, ela teve 60 pessoas, combatida por um exército de três mil
homens, treinados pelos americanos, um exército boliviano treinado
pelos americanos. Agora, quanto ao fato do Che ter sido deixado à
própria sorte pelo Fidel Castro eu acho isso mais intriga do que
realidade. Eu acho que quem deixou o Che à própria sorte foi o Partido
Comunista boliviano. Na época que prometeu apoio e não manteve a
palavra. Alguns militantes do Partido Comunista boliviano aderiram,
contra a vontade do comando do Partido, à guerrilha. Agora, com isso, a
guerrilha ficou sem apoio na cidade, que era fundamental. Assim como
foi fundamental em Cuba. E eles ficaram, então, isolados na mata.

Paulo Henrique Amorim – Agora, não há nada que evidencie essa posição que se atribuiria ao Castro de lavar as mãos e deixar o Che morrer?

Maurício Dias – Não, não. A suposição parte do fato
de ele ter retirado o Che Guevara do Congo, quando frustrou-se a
guerrilha no Congo. O Che ficou isolado e certamente seria morto. E aí
foi uma equipe cubana e resgatou o Che lá. E se pergunta por que isso
não foi feito na Bolívia. Dessa situação é que se especula e também por
que o Che saiu de Cuba visivelmente com a visão diferente de confronto
econômico com o Fidel Castro. Mas isso não significa que eles se
tornaram… eu acho que ele saiu para fazer a guerrilha para criar
aquilo que o Napoleão criou para a Revolução Francesa, criar ambiência.
Se o Napoleão não derruba a Monarquia francesa, as Monarquias
européias, a Revolução Francesa teria muito mais dificuldade de se
consolidar. O isolamento de Cuba facilitou o fracasso do regime. E o
Che, certamente, teve a missão de criar uma ambiência revolucionária
para facilitar Cuba… o prosseguimento do Regime Comunista em Cuba.

Paulo Henrique Amorim – O que ainda pode surgir de
documento aí? De onde está faltando vir documentos que lançaria as
luzes finais e definitivas sobre esse episódio, ou como você diz no
encerramento do livro, “Clio, a deusa grega, nunca se mostra
inteiramente para ninguém”?

Maurício Dias – É verdade, ela nunca se desnuda
inteiramente. Até porque pode vir… eu acho que há mais documentos
americanos. Documentos terminam em… esses que eu publiquei, termina
em 1968, no começo de 1968. Há mais documentos. Há documentos ainda
embargados. E acho que documentação cubana também. Você sabe que quem
mandou o diário do Che para Cuba e as mãos do Che, que foram cortadas,
foi um boliviano chamado Antonio Arguedas. É curioso porque era um
homem de ideologia cambiante. Ele foi de esquerda, passou para a
direita, voltou para a esquerda. E aí era Ministro do Interior do
Governo da ditadura militar boliviana. E, depois de tudo, ele mandou
entregar ao Fidel Castro o diário do Che. E aí foi viver em Cuba, viveu
um tempo e depois voltou para La Paz, onde morreu. Explodiu uma bomba
na mão dele. E essa história é descrita por jornalista argentino de uma
forma magistral, porque é uma metáfora dessa ideologia cambiante do
Arguedas. A polícia boliviana diz que foi um acidente. E, na hipótese
de um acidente e não atentado, o erro foi que o Arguedas – e você veja
que metáfora curiosa – em vez de acionar o mecanismo da granada para a
direita, onde ele… a direita era o tempo de explosão, ele errou e
acionou para a esquerda e aí explodiu.

Paulo Henrique Amorim – Detonou…

Maurício Dias – Exatamente, detonou.

Paulo Henrique Amorim – Agora, uma conversinha aqui
rápida, a parte. O que você está achando dessa discussão sobre o Lula
3, o terceiro mandato do Presidente Lula?

Maurício Dias – Evidentemente que há uma… acho
que o Presidente Lula, o Governo, está fazendo um  jogo político com
isso. Porque nada melhor para o poder do que ter perspectivas de
continuar no poder. Mas evidentemente não há condições políticas e nem
é razoável, na minha opinião, que se mude a constituição para um
terceiro mandato. O Lula fazer no poder o que o Presidente Fernando
Henrique fez para conseguir a reeleição é um papel tão feio quanto o do
seu antecessor.

Fonte: http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/463501-464000/463902/463902_1.html

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